sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Tiquete refeição


Outro dia chato. Falta de sei lá o quê. Uma música que eu finjo que gosto no rádio. Sei lá, só finjo que não desgosto. Todo mundo que eu conheço acha legal. Eu não. Mas não é a pior coisa que não acho legal e suporto.
Chego no trabalho. E aí, ê aí dos colegas... Muitos colegas. Nenhum amigo. Dos chefes nem um “e aí”. Que se danem. Se fosse chefe saberia me vestir melhor que eles. Aquelas gravatas ruins que já vem com nó... Aqueles ternos beges muquiranas com cotovelo meio encardido. Aquilo faz minha camisa de time comprada na Saara ter uma dignidade especial. "Dignidade" é uma palavra boa de dizer. Mas pra dizer tem que ter os dentes da frente senão o som não sai legal. É assim em toda palavra que tem muito d e muito t. "Dignidade" está escrito na propaganda da firma que vem no contracheque. Aquelas paradas de de dignidade, responsabilidade do social, e o caramba. Me tiraram 19 reais no contracheque. Achei melhor não reclamar. Dig-ni-da-de. Ainda vou achar uma situação pra falar essa porra dessa palavra.
Hora do almoço. A turma vai no “kilo”. Eu gastei os tíquetes pra fazer mercado. A minha velha acha que foi o que sobrou. Que bom que alguém acha que algo me sobra. Acho que dou os tíquetes para a minha mãe para sentir isso.
Marmita morna. Gosto morno. ...Que esfria na boca....
Trabalho chato. Por que eu estou aqui? Será que não tem nada que eu possa fazer feliz? Mas vamos batalhando... O chefe não pode notar que acho tudo sem sentido, uma droga. No trabalho a gente só aprende a se defender dos “colegas”. Falta alguma coisa. Deve estar na gaveta. Tem dia que passa devagar demais. Os colegas gostam de rir dos chefes. Olham pra mim esperando que confirme algo meio engraçado que alguém falou. Eu não. Não gosto dos chefes. Mas sei que não tem graça. Nada tem.
Vou ao banheiro. Essa pausa me faz pensar na falta do meu banheiro. Da minha casa que nem minha é. O que eu estou fazendo aqui? Acabou o mijo, acabou a pausa. Quando ninguém pensa em nada quando mija eu só consigo pensar em mim quando estou mijando. É rápido. Acabou. Acabei.
To com o ombro duro. Meu joelho anda doendo. To ficando velho.
Volto de ônibus. Meio crucificado naquela droga de ferro no meio do ônibus. Todo mundo ali entulhado. Com a mesma, a mesmíssima expressão no rosto. Num ônibus cheio na presidente Vargas às seis da tarde todo mundo fica igual. A igualdade é o ônibus.
Cheguei na rua. Ando um pouco, outra vez “e aí” dos vizinhos. Na subida vem descendo aquela moça branquinha que é da universidade. Tá ajeitando uns papéis, sei lá. Umas coisas. Um dia quis me entrevistar. Disse que depois e indiquei um vizinho que podia falar. Estava apertado pra ir no banheiro, senão até falava. Mas ir no banheiro me faz pensar em mim. Não ia dar.
Minha mãe deve estar lá, esperando os tíquetes que recebi hoje. Vou passar na casa dela antes. Os canas estão na subida. Os caras já me conhecem. Já conhecem todo mundo. Ficam ali na viatura olhando bunda, palitando dente, filando cerveja na barraquinha. Vou aumentar o volume do rádio do celular. Hoje tem uns caras novos descendo a rua. Começaram a correr. Engraçado ver gordo correr. Caraca, que é aquilo? A moça branquinha está agachada atrás duma escada. Acho que tá chorando. Ela tem um nariz pequeno... Tá ligando pra alguém. Os vermes gordos atiram pra todo lado. Um caiu.
Ouvi um créc atrás da orelha. Meus ombros relaxaram. Alguma coisa soprou meus olhos. Acho que o joelho dobrou.
Gosto morno. ...Que esfria na boca.