quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Das baratas e das memórias picadas


Lista de compras: sabão em pó, amaciante, ração para a gata... Eu andava à noite pela rua esburacada em direção ao supermercado xexelento da minha rua. Um calor danado. Daqueles em que a gente se pega falando um palavrão seguido de um sopro sobre o queixo sem mais nem por que. A calçada _como muitas do Rio de Janeiro_ parece ter sido bombardeada de tão esburacada. Mas oficialmente aquilo é o que se chama aqui de “o asfalto” por oposição à favela. Talvez pela atenção aos buracos eu tenha adquirido o hábito de varrer o chão com os olhos pouco à minha frente quando caminho. Nos dias em que estou animado e mais enérgico varro uns 5 ou 6 metros à frente. Nos dias em que alguma tristeza ou o calor me estreitam os ombros a varredura é mais próxima. Coisa de um metro e meio ou dois.
Nesse dia vi um punhado de papel picado que se espalhou pela calçada. Parecia ter sido atirado do alto, talvez de uma janela pela área em que os pedacinhos se dispersaram. Eram uma ou mais fotos picadas em fragmentos bem pequenos. O autor ou autora do mosaico, além de não querer mais ver quem estava retratado ali, não queria que ninguém mais reconhecesse a pessoa. Era um esquartejamento simbólico. Como todo esquartejamento, aliás. Um ritual de banimento da memória. O ritual deve mesmo ter sido necessário por que, desgraçadamente ou não, a espécie humana não consegue se obrigar a esquecer de algo ou alguém tanto quanto não consegue fazer cócegas em si mesma. Daí o ritual para ter na memória, como concorrente ao objeto que se quer esquecido, a atitude decidida e extrema de retalhar o registro material de uma lembrança. Parei de repassar a lista de compras. Me veio o absurdo de que quando se rasga uma foto é quando a pessoa retratada está mais impressa nos afetos. Quem nunca rasgou ou teve sua foto rasgada? Imaginei a pequena biografia afetiva do esquarteja dor da foto e do esquartejado. O primeiro resolveu mudar de vida e banir alguém que lhe cometeu uma ingratidão, lhe traiu, lhe decepcionou ou não deve mais figurar no álbum de retratos para não gerar constrangimento a um novo afeto. Esta última circunstância, mais embaraçosa para quem a causa de que para o tal novo afeto. O esquartejado aí aparece como a presença incomodativa e não convidada de uma barata no meio da noite. Tá bem, como uma barata a qualquer momento, por que ninguém fica esperando uma barata em nenhuma situação. O fato é que a foto quando inteira e cheia de carinho era uma amuleto para lembrar o que os unia. Quando rasgada perde este caráter por que o amuleto não é mais necessário. O estrago já está feito e o que sobra no íntimo é uma mistura do bem que um dia se quiseram com a mágoa que lhes afasta e também por si lhes une. Num fragmento da foto um olho de pestanas longas e sobrancelha espessa. Não dava para saber se era de homem ou de mulher. Alguém poderia dizer que se livrar de fotos é coisa de mulher. Talvez ninguém saiba sobre os homens por que os homens jogam as suas fotos picadas secretamente pela janela.
Passei a refletir sobre esse paradoxo da memória jogada pela janela e por isso fortalecida. Paradoxos lógicos são bons para superar o calor emburrecente de uma rua suja. Suja inclusive de emoções fotografadas pulverizadas do alheio. No caminho de volta uma barata, justo uma barata passeava ali pelas fotos picadas. Fantasiei um pouco com fragmentos de expressões que a experiência me lembrou: “amor aos pedaços”, doces, baratas gostam de doces... amor aos pedaços viram baratas. Lembrei da lixeira do meu prédio que tem tranca por fora para o lixo não se rebelar e fugir como se fosse barata, reivindicando seu lugar de volta à casa dos moradores...
Pensei nisso enquanto pensei em matar a tal barata ali na minha frente. Me lembrei que a coisa mais fácil do mundo é perseguir e matar uma barata. Baratas têm uma memória de 8 segundos. Se você começar a perseguir uma barata e ela sai do seu campo de ação. È só esperar 8 segundos que ela volta a se expor e pára de fugir. O inseto simplesmente se esquece de que estava sendo perseguido. A barata fugiu quando entendeu minhas intenções assassinas. Eu não esperei. Matei a barata. Matar barata é fácil por que a memória delas não passa dos tais 8 segundos. Mas a minha paciência com barata dura ainda menos.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Eu "Meia" Maluca


Eu meia maluca

Tive um sonho booom...
Saí do trabalho assim que a patroa chegou . Ela normalmente chega muito tarde, diz que vem uma hora mas na verdade nunca se sabe mesmo a que horas chega. Eu fico dando conta da faxina até umas seis. Depois disso só tenho de ficar com a filha dela vendo desenho, jogando joguinho... Mas é chato quando ela demora por que o ônibus na volta fica um inferno. Tem gente que até acha graça da muvuca. Eu não acho não. Aquele ônibus cheio, gente falando palavrão, gente furando fila lá na Central, pivete que passa e rouba a gente no dia do pagamento. Tem colegas minhas que vão naquela lata de sardinha ouvindo besteria o caminho todo. E elas riem, riem... Eu não. Tem mulher que não se dá ao respeito. Tem gente que não se dá ao respeito. Eu prefiro até que nem me notem ali.
Mas eu estava falando da minha patroa pra poder chegar na história do sonho. Bem então é isso: ela demora às vezes liga, ás vezes não liga. Eu não posso é reclamar. Moro em Inhoaíba. Gasto muito de passagem. Não achei nenhum trabalho perto de casa. Aquilo lá é muito atrasado. Bem, se a dona Vera me demite eu saio com uma mão na frente outra atrás. Sem indenização sem nada. Quem mora em Inhoaíba não pode exigir essas coisas de carteira assinada, nem nada. Eu fico na minha. Já fui muito boba antes. Boba de comprar briga, de até bater boca com patroa. Mas isso não faço mais não. Eu era solteira e espivitada. Agora sou solteira e tenho duas filhas pra criar. Pobre é assim: quando tem um tiquinho de juízo e faz de tudo pra evitar filho segura enquanto pode, faz todo tipo de troço. Até paguei o doutor Adalto lá do SUS pra conseguir ligar as trompas. Aí pimba. Um belo dia descubro que joguei dinheiro fora pagando o dr. Adalto. E quando acaba não é um bebê, são duas. E duas meninas. Menina _Deus me perdoe_ é um inferno pra criar. A gente tem de ensinar a não escolher homem errado. Assim que nem o pai delas. Duro é dizer isso e fazer elas pensarem que a mãe delas sabe das coisas. Pois é. O pai das meninas foi embora quando soube que eu estava grávida. Disse que não era dele. Que eu falei que tinha ligado e não ia ter filho... No fim da história disse até que era casado e não podia sustentar duas famílias. Mas eu acho que é mentira. Mulher nenhuma ia querer saber de casar com um homem daquele. ...Só eu. Mas eu era burra. Agora eu sou é gorda. Gorda, com filho e velha tem é que ser esperta. É eu acho que estou bem gorda. Acho também que pareço bem velha. Com 36 parece que tenho mais. Ainda mais quando eu vejo naquelas revistas da dona Vera que as atrizes da novela nunca saem dos 30. Isso quando chegam. Tem mulher ali que é macaca velha, rodada... mas aí faz plástica, lipo, lifting, mais não sei o quê. Mas deixa isso pra lá. Falei de tudo pra contar uma história curtinha de um sonho bom. Daqueles tão bons que a gente tem pena de sair dele. E quando acorda fica se perguntando se valia a pena acordar. Por que dia é tudo igual. Sonho não. Sonho quase sempre é diferente. Te quando é sonho ruim. É ruim mas é diferente. Então é ruim mas é bom, entende? Não entende nem é pra entender. Eu estou dizendo isso não é pra ninguém ler. É pra mim mesma. Então eu entendo. Bom ms e tal sonho, caramba. É o seguinte. Peguei o tal do ônibus. Estava cheio já naquela hora. Eu disse que saí mais cedo? Na verdade menos tarde do que quando a dona Vera demora. E ela demora sempre. Não foi isso que a gente combinou. Que saco, estou eu falando disso de novo. Parece que tem um sururu na minha cabeça. Não prende em nada. Minha cabeça fica voando. Então... No ônibus que estava cheio e seguiu cheio até depois de já ter chegado em Caxias eu consegui um lugarzinho pra sentar. Sentei, então puz a bolsa aqui assim. Me debrucei por cima dela... Eu faço assim por que não gosto de ficar esbarrando, tocando nos outros. E tinha um homem do lado. Eu não gosto de dar confiança. Já falei que estou gordinha. Então precisei me encolher. Ali fiquei entre o homem e a janela... Batia um ventinho pela janela meio aberta do ônibus. A senhora da frente tinha um perfume que eu gosto. De noite nem dá pra ver que a paisagem é tão feia. Daí eu fui sentindo uma coisa boa. O corpo relaxando, amolengando... Dormi. Deve ter sido uns dez, quinze minutos. Mas deu até pra sonhar. E em tempo de sonho parece uma eternidade. Então. Daí eu sonhei que estava dormindo ali mesmo no ônibus. Olha que coisa! Eu sou assim mesmo meio maluca. Eu achava que era meia maluca mas a dona Vera me corrigiu uma vez. Na frente do marido dela. Fiquei com uma vergonha... Mas com mais raiva de mim por que não aprendi antes de pagar aquele mico. Velha, gorda, com duas filhas e falando errado. Já pensou? Pois é, minha filha. Bem, Aí eu sonhei que estava dormindo no ônibus onde eu estava dormindo. Só que tempo de sonho é assim MEIO maluco também. No sonho o ônibus rodava, rodava e me levava de volta ao trabalho no dia seguinte sem eu precisar acordar. Não precisava descer em casa. Não tinha coisa em casa pra fazer. Não precisava dormir pensando em acordar pra por a comida das meninas que vão pra escola e depois passam o dia sozinhas na mão de Deus. Mas aí não tinha casa, não tinha as meninas. Não tinha nem a dona Vera. Não tinha nem porquê de pegar o ônibus. Tinha só o caminho do ônibus que rodava pra eu dormir. É assim. “pra eu dormir”. Eu falava “pra mim dormir”. Mas um dia dona Vera me corrigiu de novo. Será que se me acharem ignorante ela me vai me dispensar? Bem. Vagou lugar ali na frente. E é na janela. Tomara que eu durma e repita o sonho também. Sonho bom. Sonho de ônibus com lugar na janela.