
Lista de compras: sabão em pó, amaciante, ração para a gata... Eu andava à noite pela rua esburacada em direção ao supermercado xexelento da minha rua. Um calor danado. Daqueles em que a gente se pega falando um palavrão seguido de um sopro sobre o queixo sem mais nem por que. A calçada _como muitas do Rio de Janeiro_ parece ter sido bombardeada de tão esburacada. Mas oficialmente aquilo é o que se chama aqui de “o asfalto” por oposição à favela. Talvez pela atenção aos buracos eu tenha adquirido o hábito de varrer o chão com os olhos pouco à minha frente quando caminho. Nos dias em que estou animado e mais enérgico varro uns 5 ou 6 metros à frente. Nos dias em que alguma tristeza ou o calor me estreitam os ombros a varredura é mais próxima. Coisa de um metro e meio ou dois.
Nesse dia vi um punhado de papel picado que se espalhou pela calçada. Parecia ter sido atirado do alto, talvez de uma janela pela área em que os pedacinhos se dispersaram. Eram uma ou mais fotos picadas em fragmentos bem pequenos. O autor ou autora do mosaico, além de não querer mais ver quem estava retratado ali, não queria que ninguém mais reconhecesse a pessoa. Era um esquartejamento simbólico. Como todo esquartejamento, aliás. Um ritual de banimento da memória. O ritual deve mesmo ter sido necessário por que, desgraçadamente ou não, a espécie humana não consegue se obrigar a esquecer de algo ou alguém tanto quanto não consegue fazer cócegas em si mesma. Daí o ritual para ter na memória, como concorrente ao objeto que se quer esquecido, a atitude decidida e extrema de retalhar o registro material de uma lembrança. Parei de repassar a lista de compras. Me veio o absurdo de que quando se rasga uma foto é quando a pessoa retratada está mais impressa nos afetos. Quem nunca rasgou ou teve sua foto rasgada? Imaginei a pequena biografia afetiva do esquarteja dor da foto e do esquartejado. O primeiro resolveu mudar de vida e banir alguém que lhe cometeu uma ingratidão, lhe traiu, lhe decepcionou ou não deve mais figurar no álbum de retratos para não gerar constrangimento a um novo afeto. Esta última circunstância, mais embaraçosa para quem a causa de que para o tal novo afeto. O esquartejado aí aparece como a presença incomodativa e não convidada de uma barata no meio da noite. Tá bem, como uma barata a qualquer momento, por que ninguém fica esperando uma barata em nenhuma situação. O fato é que a foto quando inteira e cheia de carinho era uma amuleto para lembrar o que os unia. Quando rasgada perde este caráter por que o amuleto não é mais necessário. O estrago já está feito e o que sobra no íntimo é uma mistura do bem que um dia se quiseram com a mágoa que lhes afasta e também por si lhes une. Num fragmento da foto um olho de pestanas longas e sobrancelha espessa. Não dava para saber se era de homem ou de mulher. Alguém poderia dizer que se livrar de fotos é coisa de mulher. Talvez ninguém saiba sobre os homens por que os homens jogam as suas fotos picadas secretamente pela janela.
Passei a refletir sobre esse paradoxo da memória jogada pela janela e por isso fortalecida. Paradoxos lógicos são bons para superar o calor emburrecente de uma rua suja. Suja inclusive de emoções fotografadas pulverizadas do alheio. No caminho de volta uma barata, justo uma barata passeava ali pelas fotos picadas. Fantasiei um pouco com fragmentos de expressões que a experiência me lembrou: “amor aos pedaços”, doces, baratas gostam de doces... amor aos pedaços viram baratas. Lembrei da lixeira do meu prédio que tem tranca por fora para o lixo não se rebelar e fugir como se fosse barata, reivindicando seu lugar de volta à casa dos moradores...
Pensei nisso enquanto pensei em matar a tal barata ali na minha frente. Me lembrei que a coisa mais fácil do mundo é perseguir e matar uma barata. Baratas têm uma memória de 8 segundos. Se você começar a perseguir uma barata e ela sai do seu campo de ação. È só esperar 8 segundos que ela volta a se expor e pára de fugir. O inseto simplesmente se esquece de que estava sendo perseguido. A barata fugiu quando entendeu minhas intenções assassinas. Eu não esperei. Matei a barata. Matar barata é fácil por que a memória delas não passa dos tais 8 segundos. Mas a minha paciência com barata dura ainda menos.
