segunda-feira, 12 de maio de 2014

O Elevador e a Amazona


_Sobe.
_Bom dia.
_Bom dia
_ 4º.
Silêncio
_5º.
_6º.
_Bom dia.
 Silêncio
 Silêncio
_ Celular tocando.
_Nove.
_Onze.
_Oi. Se cair é por que estou no elevador.  Nem imagino. Fala...
Como casar?! Assim, sem mais nem menos?! Morando?! Onde?
Não, não sabia não. Nunca mais vi ele. Eu? Nem... Olha, tá picotando vai cair. Te ligo depois.
_ 4º.
_ Alô! ...Quando você ia me contar, seu babaca?!
É assim todo dia.  As pessoas parece que escolhem meu carro para descobrir que estão tomando chifre.  Uma vez duas mulheres se pegaram e o cara parecia um cachorro que caiu do caminhão de mudança. Sem saber o que fazer. Homem... homem que é metido a valentão não faz esses escândalos não. Deve ter muito chifrudo que encontra o outro aqui e finge que não.  Fico só imaginando o que acontece depois. A porta fecha e eu engato em outra história. Às vezes fico foleando a Bíblia ou com o fone do celular... Mas não presto muita atenção ao rádio e nem enxergo direito aquelas merdas daquelas letrinhas na Bíblia de bolso. O supervisor é evangélico. Ganhei essa Bíblia de bolso na Central e resolvi andar com ela. Semana passada o Wantuil foi demitido. Andava de guia no pescoço. Diziam que era Ogã. Diziam que o Wantuil comia o Enoque. Enoque é o supervisor.
_5º.
_Tá subindo?
Suspendi o beiço fazendo um arco com a boca apertada, levantei o queixo devagar e depois baixei rápido.
_Vai ser demitido hoje. Todo mundo tá sabendo.
_Foi aquela história do... do...?
_6º.
Porra, por que as pessoas param o elevador pra passar de um andar pra o outro?
Se eu fecho os olhos pra desligar os ouvidos me chamam a atenção os perfumes.  Tem tanto perfume aqui. Daí um incomoda ou agrada e se destaca.  Assim é com as conversas que nunca consigo acompanhar inteiras.  Às vezes tento inventar na minha cabeça como termina quando o povo sai. Faço isso pra sossegar a curiosidade, a aflição que dá, sei lá.
_Ela ficou sabendo como?
_Lógico que alguém falou, né?
_Naquilo ali não tem santa não, Jéssica.
_Mas ela nunca se deu ao respeito. E ela, sabendo disso, contou pra ela lá que fez a caveira dela e dela também.
Tem umas histórias que fica difícil entender. Quando estudei esse negócio de provérbio parece que era errado usar “ela” assim. O “ela” uma hora é uma pessoa, outra hora ela fala uma “ela” que é outra pessoa. Tem de saber provérbio até pra fazer fofoca. Fofoqueira usa esse “ela” que muda de quem se fala pra quem tá ouvindo não entender nada e ficar mais curioso.  Dá vontade de interromper e perguntar _ Ela quem, porra?
Mas as duas podem me responder: “ Você não conhece.” E isso é pior que “não te interessa”.
Mudei de canal antes de chegar ou sair conversa nova no 9º.
_E aí?
_Caralho, num estudei nada.
_Vai cair aquele negócio de tributação... comequié?
O outro espera o complemento que não vem e faz um riso de escárnio meio forçado
_”Regime de tributação”? Sei lá. Caralho, tu tá pior que eu.
_Caralho ele é muito babaca, mermão.
_Caralho. Babaca pra caralho.
_Sabe o que ele fez quando aquela menina moreninha perguntou daquela porra do...? do..?
_Caralho, cara, tu não sabe nada mermo. Quequele fez?
_9º.
_Já é o nove aqui?
Imaginando que eles também não sabem que o nono é o nove, fiz aquela cara com o beiço e o queixo de novo e repeti rápido: _9º.
No fundo dessa conversa tinha outra. Ah, é. Esqueci de dizer que consigo prestar atenção em duas, três...
_Depois você vai fazer o quê?
_Fazer o quê o quê?
_Ah, sei lá. Sair,  tomar um chope. Ligar pro namorado...
_Pra casa.
_ein?
_Vou pra casa. Amanhã ainda é quinta.
_Ah, mas dá pra se distrair. Esperar o trânsito melhorar. O metrô tá menos cheio e depois o ônibus leva menos tempo se você volta uma hora mais tarde. 
Ela fez um muxoxo com um olho fechado e mexendo na bolsa.
_É o namorado?
_Que namorado, garoto? Vê se eu dou essas confianças pra homem mandar na minha vida?
_Então. Você pega o 350 e a gente volta junto. Eu desço ali no Bicão. Olha, vou te contar o que uma conhecida minha fez com o namorado que não deixava ela sair com os colegas do trabalho. Ligava direto. Esperava ela no ponto do ônibus e tudo.
O rapaz olhou rápido de canto de olho pros caras que repetiam palavrão. Achou que eles atrapalhavam o clima do convite justo quando a menina começou a responder com uma frase inteira e uma história podia ser contada. Também detesto quem fala muito palavrão. Mais quem fica repetindo o mesmo. O rapaz cuidava bem das unhas. Tinha aquela coisa de tutano que homem usa sem ser viado, pulseira de correntinha. Cabelo com costeleta feita à régua. Tava ali um cara que precisava agradar.
_ Essa minha conhecida, na verdade, conhecida da minha irmã... Ela um dia disse pro namorado que ia sair cedo e falou pra ele ir buscar ela no trabalho que ela queria fazer uma surpresa. Aí o cara ficou todo animado, né?  Ela pediu pra ele emprestar o cartão dizendo que era pra fazer depilação e clareamento de virilha. O cara, que era um mão de vaca, nem chiou. Deu o cartão. Quando deu cinco horas...
_9º.
_Já é nove aqui?
_Dá licença.
_9º.
_Tamo saindo também.
No fundo uma moça gordinha mexe no celular e ri. É daquelas pessoas que riem mais com os dentes de baixo. Parece que é com medo de borrar o batom. Muita maquiagem pra uma moça nova. Deve ter uns 27,28. Mas se vê que a cara é toda marcada. Sabe aquela bochecha que parece areia mijada?  
Uma senhora se abana com um envelope de exame. Tá fresquinho hoje. Tem o ventilador. Mas a senhora está com calor. Deve estar incomodada por que o ventiladorzinho fica apontado só pra mim.  Sabe-se lá de que que é o exame.
Meu rádio toca Agepê. Nem tinha notado. “Deeeeixa eu te amar/ Faz de conta que sou o primeeeiro/ na beleza desse teu olhar...”
Alguém tem o rádio do celular tão alto que a música escapa pela fresta entre a orelha e o fone:
“Bideee inemoniiii... nã-nanananana nã nãa nãaa...” Sempre gostei do Maicom Jackson. Essa música me lembra aqueles chicletinhos quadradinhos coloridos que a gente enchia a mão e jogava na boca.
Parece que o Maicom Jackson está respondendo o Agepê por que a toada das músicas é parecida.
Esses assuntos recortados, essas histórias que eu tenho que acabar na minha cabeça por que, de verdade, uma pára no 4º, outra no 6º, 7º, quando também entram outras histórias que não vão terminar... Essa rotina tá me deixando com um sistema nervoso demais da conta.
_11º.
Parece que ninguém me ouviu. Ou ouviu e não liga. Ou pode ser que não queiram mesmo parar no décimo primeiro. Quem pediu falou “onze” e não “décimo primeiro”. Vou facilitar:
_Onze.
Sai a moça da maquiagem que tava no celular fingindo que alguém escrevia pra ela. As pessoas pegam o celular quando não têm bem noção do que fazer com os intervalos.
Sai a senhora que se abanava com o exame no espaço pequeno.
Aí vem quem entra.
Parada esperando para entrar tem uma mulher de uns dois metros de cabelo longo laranja. Ela está nua, ri um riso gentil com todos os 300 dentes caninos e segura uma faca de lâmina curva feito bumerangue para frente. Tem às costas um machado preso com uma tira de couro. No couro ainda tem vestígios de pelo do animal de onde foi cortado. O machado tem sangue fresco melado pingando nas penas das asas da mulher. Tem uma pintura que imita pintas de onça entre os seios e no ventre dela. Uma corda trançada na coxa tem uma bolsinha feito uma cesta. Dá pra ver que na cesta tem a mão cortada de um homem. O relógio ainda está no caco de antebraço. O sangue da lâmina da faca está coagulado e é meio azul. Na outra mão ela segura a cabeça de um unicórnio metendo quatro dedos pela boca e agarrando os dentes de cima e com o polegar dentro da narina do bicho.  Por que não segura pelo chifre?
Essa rotina me cansa. Quando vai acontecer alguma coisa nova aqui ?
_Desce.

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