Corria a década de 70. E eu me orgulhava de ser a primeira turma da escola primária com o novo uniforme criado pela ditadura. Bem, me orgulhava do uniforme, não da ditadura, claro. Daquilo não dava pra se orgulhar nem formando no pátio pra cantar "Eu te amo meu Brasil". Eu era feliz pelo uniforme de calça azul marinho e camisa branca de abotoar com o brasão da cidade no bolso em vez do tradicional “E.P.” que queria dizer “Escola Pública”. Estudava de manhã. À tarde e como de costume, ia ficar com meus avós, que moravam na mesma rua. Um dia, não lembro bem, minha avó teve de ir ao médico ou ao centro espírita, onde meu avô compunha pontos para os santos. Os pontos do meu avô tinham palavras bonitas e eu gostava. Se alguém se perguntar quem compõe pontos de terreiro, saiba que meu avô era um que fazia bem. Ninguém cantava direito porque as palavras eram difíceis para o entendimento do cambono e do seu Oliveira. Seu Oliveria era um que sempre cantava tudo errado. Mas essa história não é sobre meu avô, o centro e nem sobre seu Oliveira. Esses merecem uma crônica própria. Talvez a próxima. A história começa num dia em que minha mãe saiu depois que eu cheguei da escola e me deixou na casa de sua tia avó que morava na mesma rua. A mítica minha rua.
Fiquei comportado e sentadinho na varanda com a tia da minha mãe, como fui instruído. Não aceitaria nada por educação, como instruído. E , sob hipótese nenhuma, devia aceitar água gelada. Minha mãe e meus avós acreditavam no poder devastador da água gelada sobre a saúde humana e animal.
Na varanda da tia da minha mãe (descobri depois que se chama tia-avó minha) fiquei ouvindo as histórias do neto dela e os acalantos admirados com que a senhora gorda de voz rouca borbulhante o tratava. Eu entediado com as histórias do primo Serginho, que era um pouco mais velho que eu. Eu sentado no chão imaginando quando minha mãe voltaria para me buscar, enquanto o menino sentado no colo da avó tagarelava. Meus outros primos eram mais velhos, estavam com seus amigos e não podiam me salvar daquela chatice. Uma hora, primo Serginho discursou algo como se fosse Castro Alves proclamando a independência e assim foi lido pela tia da minha mãe que eu também chamava de tia. Disse ele: “Vovó, eu amo a noite”.
Naquela época eu ouvia os sentidos pejorativos que a meninada da rua e meus colegas de escola davam às palavras “viado” e “bicha”. Mas havia os sentidos de sensibilidade e delicadeza “exageradas” a que se referiam os familiares da bicha quando a tratavam à baixa voz de “um pouco efeminado” . Eu não atentava para as implicações sexuais de uma pessoa ser viada. Mas na hora pensei: “Esse primo Serginho é bicha”. E não era um julgamento moral ou de caráter. Era um jeitão. No meu entendimento de criança a pessoa ser viado era como ser canhoto ou destro, ter óculos ou torcer para o botafogo. Uma coisa que uns caras são. Outros não. Nem atribuía a palavra a alguém que se comportasse como menina. Meninas não eram daquele jeito. O jeito não era compreensivelmente ruim nem bom. Embora as descrições sobre quem é bicha, viado, efeminado, muito sensível... fossem cheias de um sentido ruim, pra mim ainda eram meio incompreensíveis e sem importância aos seis,sete anos. Bom, o fato é que primo Serginho já era, à luz do sentido político-social-psíquico e inclusivo de minorias de hoje, um jovem cidadão que usufruía do seu direito sagrado de ser viado. E a sua construção de personagem era pra mim a definição. Afinal aquela família orgulhosa e que não era nem mais nem menos preconceituosa que qualquer uma tinha um membro que era algo que não se podia dizer.
O tempo passou e o primo cavou uma forma de aceitação de sua condição na família. Por vocação, esperteza, coação ou um pouco de tudo isso, tornou-se médico. Médicos são deuses na minha família materna. Naquela família suburbana, que já fora bem mais pobre, a perda de um bebê por problemas pulmonares no passado fez da hipocondria uma tradição quase religiosa. E quase neste caso é porque está acima do religioso, tocando nele quando suave. Assim o primo compôs ainda melhor o seu personagem social ao criar um “mas”. O estratégico “mas” que todo aquele julgado desviante deve ter e ser reconhecido por quem o julga. A possibilidade de suavizar o esperado estigma. Ele era efeminado MAS era médico.
Um dia, na mesma rua, foi lá o Serginho visitar a sua avó. O meu avô morava ainda do outro lado da rua, quase em frente. Conta-se que o primo apareceu no seu uniforme de super herói: todo vestido de um branco antártico, com estetoscópio pousado em torno do pescoço e uma maleta que sacramentava o seu ofício contra qualquer dúvida. Não era um enfermeiro. Não era um farmacêutico, não era um vendedor de cuscus. Era um doutor da medicina.
Naquele dia meu avô passou mal. Teve lá um princípio de qualquer coisa. Pressão alta ou coisa parecida. O primo foi chamado às pressas. Não lembro se ele era cardiologista. Mesmo antes da morte da minha avó por infarto, os cardiologistas eram os titãs entre os deuses no Olimpo imaginado pela minha família. Até hoje, minha mãe não entende porque não se resolve a crise dos refugiados na Europa ou alguma guerra étnica, ou a questão palestina ou a descoberta da partícula mãe que pariu o universo. Bastava chamar um cardiologista que ele resolveria tudo. Bem, o fato é que meu avô se agitava com seu estado e ficava ainda mais irascível quando se sentia mal. Só a ciência para cumprir a missão de domar a doença e o humor de meu avô.
Serginho devia ser um bom médico. Caprichara para isso. E não há motivos para não crer que fosse vocacionado para atender emergências. Mas fica por conta da minha imaginação a tensão de tratar de um evento raro: a fragilidade do patriarca durão. A chance de merecer, aos olhos de todos, o primeiro uniforme de médico com faixa de marechal, equivalente à túnica do Dalai Lama. A chance de um diagnóstico certeiro e tranquilizador. Considerando como as famílias suburbanas adoram dramas, aquela era a cena que antecede o fim da novela e segura o público angustiado até terminar o comercial dos tapetes Tabacow ou das lojas Ducal.
O primo entra impávido na saleta onde está o avô de camisa listrada e bermudão sendo abanado com uma revista Manchete pela sua nova companheira. Era uma senhora de cadeiras enormes que poderia dar a luz a dois freezers gêmeos. Como agradava a meu avô. Aquela pietá dirigida por Fellini aguardava o clímax. Aí, a maleta reluzente descreve um velocíssimo semicírculo como um sabre jedi até a frente do doutor que a coloca no chão diante de si. A maleta preta podia ser de couro de rinoceronte com costuras em linha feita de hímen de lhama. As alças eram as da Arca da Aliança e o estalo com que se abria soava como o armar da espingarda de John Wayne prestes a varrer do mapa os Incas Venuzianos ou o vilão que mandou para o canavial a Escrava Isaura. Já durante o pouso da maleta o médico exprime um rosto transfigurado. O lábio se fecha em bico e tenta se alojar junto do nariz. Os olhos se espremem. Tudo num átimo de segundos. E... diante de meu avô aflito, minha avó-drasta mais aflita ainda, da princesa Diana na capa da revista Manchete amarrotada e todos os presentes... voa para fora da maleta de médico num gesto coreográfico uma saia rodada vermelha e preta com babados. Serginho se ausenta em consciência e assume uma pomba-gira às gargalhadas. Meu avô começa a temer que a visão seja o resultado de danos cerebrais capazes de corromper para sempre sua percepção da realidade. Sua companheira e outros assistentes se organizam para formar uma corte para a entidade. Ela faz a consulta. Decreta que tudo vai ficar bem e o que deve ser cuidado para que tudo continue bem. Meu avô com a mandíbula disposta em um ângulo de 32 graus mensuráveis em transferidor. E aquele olhar que nele sempre antecedia um brado de palavrão normalmente dito como hino cheio de verbos flexionados em mesóclise. Mas não diz nada desta vez. Cantoria, dança e ritmo até que a pressão de meu avô passasse a ser a única coisa esperada e normal naquela casa. A pomba-gira reinou naquela tarde em seus trajes híbridos deste extremo ocidente que era minha rua. Tinha em volta do pescoço ainda o estetoscópio, agora convertido em encharpe, camisa branca de abotoar, no bolso beliscado por caneta dourada o nome do seu cavalo bordado em letra de mão antecedido pelo “Dr”. ...E da cintura para baixo a saia vermelha e preta que girava abraçando as pernas quando o giro do corpo parava diante do velho. Cada vez que estaa história foi lembrada eu imaginei mais helicópteros sobrevoando a casa. A música do plantão do jornal como as trombetas do apocalipse. Era aparentemente a mais caótica situação como ferramenta mística de reparação da saúde e da ordem. O quadro surrealista que nem Dali empapuçado de haiuáscar intravenoso impelido para dentro de si por bomba de bicicleta poderia imaginar.
Pensando bem, talvez primo Serginho não estivesse ausente. Talvez no domínio da entidade que por ele se apresentava estivesse era bem representado. Talvez primo Serginho nunca tenha dito tão bem o que era. Era um médico que recebia pomba gira e amava a noite. A ele e sua entidade o meu respeito.

Hahahahahaha
ResponderExcluirBrilhante!
Hahahahahaha
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